Brasil pode importar e exportar doenças durante a Copa

Turistas podem infectar população local com sarampo, meningite e chikungunya. Já entre as ameaças aos estrangeiros estão dengue e diarreia do viajante

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Reprodução
antoniothomas/Creative Commons

Marcella Centofanti
VEJA.com – 09/06/2014

Cerca de 600 mil turistas estrangeiros são esperados no Brasil durante a Copa do Mundo. O grande contingente de pessoas vindas de várias partes do planeta favorece o intercâmbio de vírus e bactérias que podem causar doenças tanto nos brasileiros quanto nos estrangeiros.

Para os brasileiros, a ameaça são enfermidades que estão controladas no país, mas em atividade fora daqui, como o sarampo. “A Europa vive um surto de sarampo, causada pela queda na adesão à vacinação. O risco é maior para crianças com menos de um ano, que, nessa faixa etária, ainda não foram imunizadas, e moradores de regiões com baixa cobertura da vacina”, afirma o pediatra Renato Kfouri, presidente da Associação Brasileira de Imunizações (SBIM). De abril de 2013 a março de 2014, 9.579 casos de sarampo foram registrados no velho continente, segundo o Centro Europeu para Controle e Prevenção de Doenças.

Outro perigo é a meningite. A vacina oferecida na rede pública brasileira protege apenas contra o sorogrupo C, mais comum no país. “Mas há tipos que circulam em outros lugares, como o W-135, no Chile, na Argentina e em algumas partes da África, e podem ser trazidos com os turistas”, diz Kfouri. No Chile, por exemplo, 32 casos de meningite W-135 foram confirmados entre janeiro e maio de 2014.

Kfouri recomenda que os brasileiros atualizem o quanto antes as vacinas obrigatóriase tomem medidas que diminuem o risco de transmissão de doenças, como usar repelente, evitar grandes aglomerações, lavar bem as mãos e consumir água e alimentos de procedência confiável. Os cuidados valem, sobretudo, para as pessoas que vão lidar diretamente com os turistas, como motoristas de táxi e funcionários de hotéis, aeroportos e estádios, indivíduos mais suscetíveis ao contágio das enfermidades.

O PERIGO DO CHIKUNGUNYA
Uma doença chamada chikungunya, causada por um vírus de mesmo nome e em surto no Caribe, também está no radar das entidades de saúde pública. De acordo com a Organização Pan-Americana da Saúde (Opas), de dezembro de 2013 a maio de 2014, a região caribenha teve 61.864 casos, entre suspeitos e confirmados.

A moléstia apresenta sintomas similares aos da dengue e é transmitida pelos mosquitosAedes aegypti, transmissor da dengue, e Aedes albopictus, também existente no Brasil. O risco é que um indivíduo contaminado com o vírus da chikungunya seja picado por umAedes, que poderia retransmitir a doença a outra pessoa. “Embora os sintomas sejam parecidos com os da dengue, as complicações decorrentes da chikungunya são mais graves”, afirma Kfouri.

Em fevereiro, o Ministério da Saúde emitiu um informe para as secretarias Estaduais e municipais alertando sobre a doença. O comunicado solicita que casos suspeitos sejam notificados e que amostras dos pacientes sejam encaminhadas para exame no Instituto Evandro Chagas (IEC), laboratório de referência nacional em epidemiologia.

AMEAÇA AOS ESTRANGEIROS
Doenças cutâneas, diarreia do viajante, dengue e malária. Essas devem ser as doenças mais incidentes entre os estrangeiros em viagem ao Brasil, pelo menos de acordo com um estudo da Universidade Harvard, publicado em fevereiro no periódico Clinical Infeccious Diseases.

Os cientistas analisaram dados de 1.600 americanos que vieram ao Brasil de 1997 a 2013, para estimar o impacto de eventos como a Copa do Mundo e a Olimpíada à saúde deles. Apenas no Mundial de 2014, 160 mil americanos devem desembarcar por aqui.

De cada cinco enfermidades registradas nos viajantes, duas eram de pele, sendo a mais incidente a larva migrans cutânea, popularmente conhecida como bicho geográfico. A moléstia que causa vermelhidão e coceira tem como principal fonte fezes de cachorros e gatos depositadas nas praias. “Nós ficamos um pouco surpresos ao perceber quão comuns são essas infestações cutâneas”, diz Mary Wilson, especialista em saúde global e líder do estudo. “Mas faz sentido, se você considerar que muitas cidades visitadas estão no litoral.”

Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) americano criou um guia de cuidados à saúde e à segurança aos cidadãos que vêm à Copa do Mundo. Entre as recomendações estão atualizar a caderneta de vacinação, trazer medicamentos para malária e diarreia do viajante e hospedar-se entre o segundo e o sexto andar de um hotel (“O primeiro andar é de fácil acesso a criminosos. Quartos do sétimo andar para cima podem ser difíceis de serem evacuados em caso de incêndio”, informa a cartilha). O guia ensina, ainda, frases em português, como “Fui picado por pernilongo (muriçoca)”.

EPIDEMIA DE DENGUE
A dengue também deve ficar no radar dos estrangeiros. A poucos dias da partida inicial da Copa do Mundo, São Paulo vive a maior epidemia de dengue de sua história: 6.894 casos foram registrados de 1º de janeiro até o balanço divulgado na última quinta-feira. Em Campinas, onde ficarão sediadas as seleções de Portugal e Nigéria, um levantamento divulgado na sexta-feira aponta 29.527 casos confirmados em 2014. No Distrito Federal, uma inspeção da Vigilância Sanitária na sexta-feira encontrou larvas doAedes aegypti dentro das instalações do estádio Mané Garrincha. Focos foram descobertos ao redor do gramado e próximo às traves.

Ainda assim, o ministro da Saúde, Arthur Chioro, minimiza a ameaça que a dengue possa representar durante o Mundial. Na terça-feira, ele afirmou que, das cidades-sede, apenas Salvador e São Paulo têm alta incidência da doença. “Nas próximas duas semanas, chegaremos a um nível de incidência extremamente baixo, quase zero”, garantiu Chioro. Segundo ele, nesses municípios foi intensificada a fumigação e as medidas de saúde necessárias para combater o mosquito Aedes aegypti.

ALTO RISCO NO NORDESTE
O prognóstico do governo contradiz um estudo publicado há duas semanas no periódico The Lancet, que avaliou o risco de surto de dengue durante a Copa do Mundo nas doze cidades-sede. Segundo a pesquisa, o risco é alto em Fortaleza, Natal e Recife.

Cientistas europeus e brasileiros, autores do artigo, examinaram dados de diversas fontes para identificar as áreas de risco. Eles estudaram os padrões climáticos de quatro agências meteorológicas, em particular os registros sobre chuvas, que têm grande influência na procriação do mosquito. Em seguida, compararam os dados com os surtos de dengue dos últimos treze anos, no mês de julho, em 553 “microrregiões” do Brasil, inclusive nas doze sedes do Mundial.

O risco de surto foi avaliado como baixo em Brasília, Cuiabá, Curitiba, Porto Alegre e São Paulo, e intermediário em Belo Horizonte, Rio de Janeiro, Salvador e Manaus. Os alertas de alto risco foram feitos em Recife, Fortaleza e Natal. “Os esforços para reduzir o impacto e a severidade da dengue teriam de se concentrar nessas cidades”, sugere o estudo. Neste século, o Brasil registrou mais casos de dengue do que qualquer outro país do mundo — mais de 7 milhões entre 2000 e 2013 —, alerta a pesquisa.

Fonte: Planeta Sustentável Abril

 

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