Tragédia em Mariana

 

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Depressão e outros problemas de saúde passaram a fazer parte da rotina

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Há dois anos, a folha do calendário das casas de dois distritos de Mariana e um de Barra Longa, em Minas Gerais, foi virada pela última vez. O dia 5 de novembro de 2015 se eternizou nas paredes das casas que ficaram de pé em Bento Rodrigues, Paracatu e Gesteira. Desde então, a vida dos atingidos pela lama da mineradora Samarco está suspensa – 730 dias depois do rompimento da Barragem de Fundão, ainda se espera o reassentamento, a indenização, o rio límpido, cujas ações de reparo, complexas, enfrentam atrasos e obstáculos que desafiam os órgãos envolvidos.

A espera e a mudança brusca de vida se tranformam em depressão nas comunidades. Algumas pessoas não viveram para testemunhar as mudanças. Seus parentes apontam a tristeza como o agente catalisador dos problemas de saúde. São os novos mortos da tragédia de Mariana. A Agência Brasil e a Rádio Nacional veiculam uma série de reportagens sobre a situação nas áreas atingidas pela lama, tragédia que completou dois anos no domingo (5).

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“Meu pai morreu de tristeza”

Enquanto faz arroz na cozinha da casa alugada e mobiliada pela mineradora Samarco, na sede do município de Mariana, em Minas Gerais, Leonídia Gonçalves (foto) , de 46 anos, lembra que um dos maiores prazeres do pai, de 67 anos, Alexandre, era tocar viola e jogar baralho todas as noites, no bar de Paracatu de Baixo. As filhas dela, gêmeas, brincavam na rua quando queriam. Todos moravam lado a lado. Agora, essa é uma lembrança que não se repetirá nem mesmo quando a família for reassentada na nova Paracatu, que deve ser construída como reparação. Alexandre morreu em março deste ano, de infarto.

A agricultora tem a convicção, no entanto, de que a causa verdadeira da morte é a depressão. Seu pai foi diagnosticado e chegou a tomar medicamento para tentar reverter a doença. “A gente era feliz. Tinha de tudo. Hoje, tá todo mundo distante. Lá era todo mundo família, era um na casa do outro, à noite a gente ficava na rua, não tinha perigo de nada. E chegando à cidade agora a gente se assusta”, relata, ao falar sobre a mudança de hábitos do meio rural para o urbano.

Quando os 39,2 milhões de metros cúbicos de rejeito avançaram pelo Rio Gualaxo do Norte (afluente do Rio Doce) e chegaram às ruas de Paracatu, um modo de vida foi soterrado. Para abrigar os moradores, a Samarco alugou residências na cidade de Mariana, de acordo com a disponibilidade do mercado, sem que as casas dos familiares ficassem próximas. Os atendidos devem aguardar até que o novo distrito seja construído.

Foi assim que Alexandre e Leonídia viraram moradores de bairros diferentes. O aposentado, transferido de casa mais de uma vez, mudou também de hábitos. Não saía de casa, emagreceu de forma repentina e, hipertenso, passou a adoecer com frequência. Os filhos o levavam ao médico, mas ele não se recuperava. Ficou depressivo. E é das últimas palavras que trocou com a filha que a agricutora tira a argumentação mais forte sobre o motivo de sua morte.

Preconceito

Existe ainda o sofrimento causado pelo preconceito. São muitos os relatos de hostilidades sofridas pelos atingidos que foram morar em Mariana. Luzia Nazaré Mota Queiroz, de 52 anos, moradora de Paracatu de Baixo,“vendia sonhos” em uma loja de noivas da cidade de Mariana antes da tragédia. Ela saiu do emprego porque não aguentava mais ouvir comentários de clientes.

“Eu tinha que estar sempre sorridente, alegre. Com o tempo, as pessoas entravam na loja e diziam: ‘eu não aguento mais esse povo falando da barragem’. Tinha uns que diziam que a gente era folgado”. Segundo Luzia, a dona da loja a apoiou, mas ela optou por pedir demissão.

“Pessoas que moram em Mariana acham que os atingidos se aproveitam da situação, porque a Samarco é quem move a economia da cidade, é quem gera emprego. Mas a gente não construiu barragem para romper em cima da gente”, argumenta Marino D’ângelo.

Há placas na cidade pedindo a volta da Samarco. O prefeito Duarte Júnior (PPS) afirma que 89% da receita do município vêm da mineração e da arrecadação do Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS), que caiu de R$ 11 milhões para R$ 8 milhões. Ele projeta nova queda, para R$ 6,5 milhões, no próximo ano, quando a Samarco, até hoje com atividade paralisada, zera o pagamento do imposto.

O prefeito respondeu ao questionamento da Agência Brasil sobre o motivo pelo qual essa dependência não foi reduzida antes da tragédia. “Quando assumimos, começamos a pensar em um distrito industrial. Mas, o que realmente acontece é que Mariana sempre foi uma cidade muito rica. Então, era muito mais interessante você receber esse dinheiro que vinha e gastar sem ter que se preocupar. Ninguém nunca se preocupou com a possibilidade de a mineração acabar, então ninguém tomava a primeira atitude. Tivemos que tomar esse tapa na cara”.

Atendimento psicológico

A Fundação Renova, criada para desenvolver as ações de reparação e compensação dos estragos provocados pelo rompimento de Fundão, não dispõe de um levantamento de pessoas atingidas que estão em depressão ou morreram durante esses dois anos, mas pretende fazer um estudo sobre o tema. É o que diz Albanita Roberta de Lima, líder do Programa Saúde de Bem-Estar Social da instituição, financiado pela Samarco e orientado por um Comitê Interfederativo (CIF), formado por órgãos públicos e a sociedade civil. Albanita argumenta também que existe um serviço disponível aos atingidos para trabalhar com a questão da saúde mental. “Desde o dia do rompimento, já foi disponibilizado um conjunto de profissionais, que vão de médicos a psiquiatras, primeiro contratado pela Samarco e depois pela fundação.”

Sofrimento será cobrado na indenização, diz promotor

O promotor do Ministério Público de Minas Gerais, Guilherme Meneghin, atua em ações e acordos extrajudiciais para garantir os direitos dos moradores de Mariana. Ele diz que existe uma complexidade na questão, por não existir a causa de morte por depressão, mas confirma que os casos de sofrimento mental são comuns. Não só pelo trauma que viveram há dois anos, mas pelas consequências de mudança de moradia do meio rural para o urbano, as confusões com o cadastro de atingidos e o atraso na construção dos reassentamentos.

“Tivemos uma audiência na semana pessada, em que metade das pessoas era idosa e não foi contemplada com os auxílios. Várias delas desmaiaram. Saíram chorando da audiência. Quem era contemplado, de emoção. Quem não era, de profundo ultraje”, relata.

A Samarco e suas acionistas Vale e BHP Billiton, além da companhia contratada VogBR e 22 pessoas, entre dirigentes e representantes, já respondem a um processo criminal pela morte das 19 vítimas de 5 de novembro de 2015. A acusação é de homicídio com dolo eventual. A ação é de responsabilidade do Ministério Público Federal.

Vilarejos para reassentar vítimas da tragédia de Mariana não saíram do papel

Enquanto a imagem de destruição dos três distritos atingidos pelo rejeito da mineradora Samarco – Bento Rodrigues, Paracatu e Gesteira – permanece viva na memória e nas antigas comunidades soterradas dois anos depois da tragédia de 5 de novembro de 2015, ainda não é possível vislumbrar as novas vilas a serem construídas para abrigar as vítimas. Os desenhos urbanísticos estão em processo final de elaboração.

Agência Brasil visitou os territórios soterrados pela lama que se espalhou com o rompimento da Barragem de Fundão, conversou com moradores que perderam não só casas, mas a memória e o modo tranquilo de vida. A ansiedade pela entrega dos novos distritos provoca depressão. Uma expectativa de colocar as lembranças de dois anos atrás onde devem ficar: vivas, mas no passado.

Cruzes e raiva 

A placa de 30 quilômetros por hora, em meio a casas destruídas e mato crescido em Bento Rodrigues, na cidade mineira de Mariana, recorda a tranquilidade do distrito de outrora. O topo do morro ainda guarda a histórica igreja de Nossa Senhora das Mercês intocada, o único vestígio de alegria que os moradores sempre citam ao contar sobre o local antes que a lama da mineradora Samarco soterrasse a tranquilidade da região.

 

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O sentimento estampado nas ruínas agora é outro: raiva, nas pichações feitas na parede da Escola Municipal de Bento Rodrigues contra a Samarco. Dor, na encruzilhada cercada de cruzes de madeira instaladas pelos moradores, onde também foi colocada uma placa nova em folha, com uma mensagem tardia: orientações de emergência para o caso de um desastre.

 

O que restou da histórica capela de São Bento, de 1718, está embaixo de um galpão, ao lado das ruínas do Bar da Sandra, famoso para os que faziam turismo na região. As casas que não foram atingidas pela lama acabaram condenadas pela Defesa Civil e tiveram janelas, portas e outros itens saqueados ou retirados pelos moradores. Mas as maiores cicatrizes da tragédia são os cinco mortos do vilarejo – quatro moradores e uma visitante.

Expedito Lucas da Silva, de 47 anos, é a pessoa da comunidade que vai com mais frequência até lá. Na mente, ainda consegue rever um tempo em que a população era unida, como uma família. “Todos que morreram em Bento, eu conhecia. A Emanuely [Vitória, de 5 anos], que estudava com minha menina. Todos eram conhecidos, eu ia na casa deles. É muito forte”, conta.

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Em Gesteira, distrito de Barra Longa, a destruição atingiu 20 famílias, a capela de Nossa Senhora da Conceição, inaugurada em 1891, e a escola municipal da comunidade. A terra brilha em volta do local soterrado, sinal do minério de ferro presente em abundância no rejeito da Samarco. Da escola resta pouco mais da metade superior do prédio. O resto está embaixo da lama, já seca.

Obras de novos distritos

De acordo com a Fundação Renova, responsável por reassentar os atingidos, foi estabelecido um cronograma para reconstrução das vilas, que foram planejadas junto com as comunidades, para que tenham a mesma organização de vizinhança e espaços públicos. Mas o processo de licenciamento ambiental para construção ainda não foi pedido. O último terreno a ser adquirido, para abrigar os atingidos de Gesteira, ainda está em negociação.

“Eles cometeram uma série de erros nos projetos de reassentamento de Bento Rodrigues, atrasando todo o processo. Têm outros problemas em relação ao de Paracatu, que também está atrasado, tanto é que, neste momento, quase dois anos do desastre, deveriam estar sendo iniciadas as obras”, afirma o promotor do Ministério Público de Minas Gerais, Guilherme Meneghin. Ele já prepara um pedido judicial para que seja aplicada sanção caso as empresas não cumpram com o prazo de entrega.

Segundo a Renova, a falha no projeto de Bento Rodrigues foi o aclive maior que o permitido, de cerca de 4% do território, o que exigiu a remodelagem do projeto. Foram feitas duas opções, que devem ser apresentadas para a comunidade. O projeto de Paracatu também não está pronto – a fundação informou que está em fase final de elaboração.

A diretora de Desenvolvimento Institucional da Renova, Andrea Azevedo, afirmou que a construção dos novos distritos ainda não ocorreu porque são projetos mais complexos que um conjunto habitacional padrão, como o Minha Casa Minha Vida. “O processo está correndo com a ajuda de toda a comunidade, então isso faz com que tenham várias discussões, para que tenha o melhor desenho urbanístico”.

A previsão é entrar com o pedido de licenciamento no fim do ano. “O início da construção será no primeiro semestre de 2018 e a finalização, como previsto, será no primeiro semestre de 2019. Todos os esforços de contratação para 24 horas de obras vão ser feitos para que não haja nenhum atraso no prazo final”, garante Azevedo.

Barra Longa

Ao contrário dos distritos que vão ser reconstruídos em outro terreno, a sede do município de Barra Longa permaneceu na área atingida. Horas depois do rompimento da barragem, já depois de 23h, a lama saiu do Rio Gualaxo do Norte e seguiu pelo Rio do Carmo, tomando a praça da cidade, adentrando em residências, comércios e no histórico Hotel Xavier.

Depois da tragédia, foram retirados de Barra Longa 157 mil metros cúbicos de rejeito, o que, segundo a líder de Manejo de Rejeito da Renova, Juliana Bedoya, é equivalente ao carregamento 7 mil caminhões caçamba.

A cidade foi quase toda reconstruída pela Fundação Renova. Parte do rejeito foi usada no parque de exposições, no campo de futebol e em bloquetes de calçamento. Ainda falta terminar o parque de exposições, a reforma do campo do time de futebol Barralonguense, e fazer reparos em cerca de 30 residências para fazer reparos, no trombado Hotel Xavier, e em cerca de 100 quintais.

Dois anos depois, atingidos por barragem em Mariana ainda não foram indenizados

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O rompimento da barragem de Fundão, pertencente à Mineradora Samarco, afetou pelo menos 500 mil pessoas ao longo de 670 km de curso d’água da Bacia do Rio Doce. O número inclui desde pessoas que tiveram familiares mortos e casas destruídas até os que sofreram a interrupção do abastecimento de água em 39 municípios.

A tragédia provocou uma avalanche de processos judiciais, levou à criação de ações civis públicas e criou a necessidade de vários tipos de indenização. A situação mais crítica é a dos atingidos de Mariana, onde os rejeitos provocaram os maiores estragos. Um acordo para ampliar quem tem esse direito e estabelecer de que forma será calculada a indenização só foi fechado no último mês de outubro.

A maior dificuldade das vítimas, segundo a Comissão de Atingidos da Barragem de Fundão, é a definição do que faz da pessoa uma atingida. São casos como o de Marlene Agostinho Martins dos Reis, de 45 anos, que morava na cidade de Mariana, mas tinha a mãe morando em um sítio em Pedras, povoado do mesmo município que foi atingido. Embora a lama não tenha afetado a casa de Marlene, mudou sua vida. Manicure e cabeleireira, deixou o serviço depois da tragédia para cuidar da mãe. A idosa sofreu danos psicológicos severos e sua hipertensão ficou descontrolada.

Ela argumenta também que perdeu acesso a alimentos com o soterramento do sítio. “Quando eu vou na reunião com os funcionários da Samarco, perguntam assim: o que você perdeu? Eu perdi sim, porque eu dependia da minha mãe. Eu moro aqui em Mariana, mas verdura eu não comprava. Não comprava frango, ovos, fruta, queijo, leite. Verdura fresquinha, peixe. Meu tio tinha uma lagoa lá do tempo do meu bisavô. E lá a gente pescava, no rio, na lagoa. Então era uma coisa maravilhosa da gente. A gente perdeu tudo”.

Cadastro

A análise dos perfis, para saber se a pessoa tem direito à indenização por dano moral ou material, é feita pela Fundação Renova, criada para executar as metas previstas no Termo de Transação e de Ajustamento de Conduta (TTAC)  firmado entre a Samarco, suas acionistas Vale e BHP Billiton, a União e órgãos estaduais de Minas Gerais e do Espírito Santo.

Quem passa nessa triagem vai para o cadastro, o que significa que a Renova reconheceu o direito daquela pessoa de receber um valor pelo que sofreu. Os critérios para a negociação em toda a região, com exceção de Mariana, são danos morais, danos materiais e lucro cessante, que corresponde à renda que a pessoa deixa de ter até que restabeleça sua atividade profissional. Um exemplo seria um comerciante que perdeu sua loja.

Em Mariana, uma ação civil pública foi movida pelo promotor Guilherme Meneghin, do Ministério Público de Minas Gerais, que conseguiu um acordo mais amplo com a comunidade. A medida passou a assegurar a indenização a pessoas que moravam de aluguel nesses locais e, depois, quem tinha residência em outras regiões, mas trabalhava nos distritos destruídos, ou seja, perdeu sua fonte de renda.

“Eles aceitaram a proposta do MP, e qualquer pessoa atingida pode preencher o cadastro”, informa o promotor. Após a inclusão na lista, são estabelecidos critérios para o cálculo de indenização, com base no que foi citado como prejuízo. “Vamos pactuar valores comuns para cada dano”, afirma Meneghin. A Renova quer fazer o pagamento no primeiro semestre de 2018, na mesma época das demais indenizações já acertadas ou a serem pactuadas em outras regiões.

Até então, já tinha sido antecipada parte da indenização, de forma padronizada: R$ 10 mil para quem tinha casa para uso no fim de semana, R$ 20 mil para os moradores que perderam residência e R$ 100 mil para famílias de pessoas mortas pelo rejeito da Samarco.

Auxílio emergencial

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Por enquanto, antes do pagamento da indenização, as pessoas aceitas no cadastro recebem um auxílio emergencial e mensal estabelecido em um salário mínimo, mais 20% desse valor para cada dependente, além do dinheiro correspondente ao preço de uma cesta básica. Foram distribuídos 8.274 cartões de pagamento para atender cerca de 20 mil pessoas. Mas também existem casos de dificuldade para acessar essa reparação, inclusive entre moradores de local atingido pela lama.

Adelina Aparecida Coelho Rola, de 52 anos, produtora rural do disitrito de Gesteira, fazia bordado para vender em uma feira, em parceria com uma senhora na cidade de Barra Longa. O rejeito destruiu a casa de sua parceira, levando toda a produção embora. “Na terça-feira nós tínhamos arrematado um monte de panos de prato para a feira. A lama levou tudo. E ela não tem mais condições de voltar a trabalhar. Veio uma depressão danada, e veio o câncer no marido, que acabou falecendo”, conta.

O rejeito também chegou à casa de Adelina, tomando o pasto onde ficava o gado de seu marido, Rafael Arcanjo Rola. Ele recebeu silagem para compensar a falta de alimento dos animais e foi instalada uma fossa ecológica piloto na propriedade, mas Adelina nunca recebeu o auxílio. “Tentei, uns falaram que eu demorei, ou que eu fui avaliada que não precisava do cartão. Aí não quis insistir”.

Informalidade

A Renova respondeu que o caso de Adelina está em análise, mas o líder do Prgrama de Indenização Mediada da instituição, Gabriel Rossoni, argumenta que um dos maiores problemas é a informalidade. A maioria da população atingida não tinha como comprovar renda, tanto para o caso do auxílio emergencial como para a indenização geral. “Para que a gente conseguisse viabilizar essa indenização, nós criamos políticas de indenização, como é o caso dos pescadores, os areeiros, o comércio de turismo e serviços”, diz.

No caso dos pescadores, por exemplo, foram consultados especialistas e instituições ligadas à pesca para determinar o ganho médio de cada função. Assim, a negociação é feita com base em uma tabela de remunerações. Casos isolados, de categorias que não são numerosas, no entanto, são analisadas caso a caso.

“Sabemos que podem existir falhas, e se tiver erros vamos corrigir o quanto antes. Se for o caso, para alguns tipos de impactados ainda não contemplados, vamos buscar alternativas, desde que se garanta a justiça. Naturalmente, se alguém não ficar satisfeito, pode recorrer à Justiça também”, afirma Rossoni. A expectativa da Renova é que a primeira campanha do cadastro finalize todas as negociações em dezembro deste ano e que os pagamentos dos danos gerais sejam efetuados até março de 2018.

Depois de extenso debate com a comunidade, ficou acertado que o auxílio emergencial recebido nos últimos dois anos não será descontado da indenização geral. Era intenção da Renova fazer o desconto, mas a população protestou. Os auxílios pagos daqui para frente, no entanto, não entram nesse acordo, segundo a Fundação.

Abastecimento de água

Também existe uma indenização para moradores de municípios com abastecimento de água prejudicado pela lama. É nesta categoria que está a maioria da população que deve ser indenizada: 450 mil pessoas, estimativa baseada no número de habitantes da região afetada. A avalanche de ações na Justiça veio desse segmento: foram mais de 50 mil processos só em Governador Valadares (MG) e mais de 20 mil em Colatina (ES), ambas no Vale do Rio Doce.

Para que o acordo seja feito direto com a Renova, extrajudicialmente, a pessoa assina um contrato que isenta a instituição de um processo judicial futuro pelo mesmo dano provocado na interrupção do abastecimento de água, tanto moral (como passar horas em uma fila para conseguir um galão de água) como material. Só continuam a correr na Justiça as ações ligadas a outros tipos de prejuízo. Mais de 251 mil pessoas já aceitaram proposta da instituição e R$ 167 milhões já foram pagos.

Dois anos depois, já foram pagos R$ 500 milhões, incluindo indenizações, antecipações, cartão auxílio e pouco mais de 200 negociações de danos já finalizadas. A Renova calcula gastar entre R$ 2 bilhões e R$ 3 bilhões com essas reparações. Tomando como base o número menor, o que já foi pago corresponde a 25% do total a ser empregado.

Agricultores retomam cultivo em Mariana, mesmo com rejeitos da Samarco

Nos cerca de 110 quilômetros (Km) de curso d’água mais atingidos pela lama da mineradora Samarco, o rejeito ainda é visto por todos os lados, dois anos depois. A região vai do ponto em que o rio Gualaxo do Norte encontra o distrito de Bento Rodrigues até a Hidrelétrica Risoleta Neves, conhecida como Candonga. A luta para livrar a água do composto à base de minério de ferro fica ainda mais difícil no período chuvoso, quando a erosão do material localizado às margens dos rios aumenta, e o rejeito é arrastado para a água.

Quando a Agência Brasil esteve na região, foi possível constatar, em diversos pontos do Gualaxo do Norte, por exemplo, a erosão do rejeito nas margens. Esse foi o primeiro rio a receber o material vindo da Barragem do Fundão, há dois anos. Hoje, a lama escura e brilhante ainda deixa a água bastante turva, de cor caramelo.

Às margens dos rios, 247 propriedades rurais foram atingidas diretamente pela lama. Foram soterrados os pastos e as chamadas “baixadas”, terrenos à beira do curso d’água, onde deveria existir mata ciliar, mas são usados para atividade agropecuária por causa da fertilidade do solo.

Agora os agricultores da região já voltaram a plantar em cima do rejeito. Rafael Arcanjo Rola, de Gesteira, ficou mais de um ano alimentando suas 24 vacas de leite com silagem fornecida pela Samarco, para compensar a destruição da pastagem. A esposa dele, Adelina Aparecida Coelho Rola, de 52 anos, conta que meses depois da tragédia, ao pisar no rejeito ainda se observava uma consistência de lama, com muita água. Duas vacas atolaram, mas foram salvas.

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No segundo semestre deste ano, Rafael decidiu plantar novamente o pasto no local. “Joguei uma terra e plantei por cima”, conta. Mas não tem certeza se o solo está livre de contaminação. Adelina relata efeitos negativos do rejeito nos cultivos, opinião compartilhada por vizinhos. “O pasto não está ainda tão bom. Está amarelado. Alguns falam que plantam a braquiária [capim], aí a raiz dela não desce. O rejeito é muito duro”.  Agricultores de outras regiões relatam que árvores frutíferas que sobreviveram à avalanche de lama morreram depois.

A água do rio ainda não é usada pela família de Rafael e Adelina. Nem mesmo pelo gado, que agora convive com cercas para não chegar à margem e compartilha a água consumida pelas pessoas. “O meu irmão me dá água dele [de nascente] para casa. Eu lavo roupa, lavo casa de noite, e durante o dia eu deixo para os bois. Só lavo o que eu preciso. Porque não tem outra água”, explica Adelina. A Samarco abriu um poço para a família, mas Adelina afirma que a bomba só puxa água “suja”, imprópria para uso. Outros moradores deixam o gado beber a água do rio normalmente e assumem o risco de futuras contaminações.

A Fundação Renova utiliza a propriedade da família como um piloto para implantação de projetos de melhoria para os agricultores. Uma fossa ecológica trata o esgoto da casa para que a água caia, limpa, no rio. Antes, todos os dejetos eram jogados diretamente no curso d’água. Também foram montados piquetes em uma área mais alta para a pastagem, mas Adelina afirma que ainda não está “bonito” porque não tem água para irrigar.

Plantio não é recomendado

A Samarco afirma que o rejeito continha minério de ferro e areia, apenas. No entanto, foram encontrados metais pesados ao longo desses dois anos em materiais analisados por diferentes instituições, como arsênio, níquel, cádmio e cromo.

A Fundação Renova afirma que os materiais têm origem não no rejeito, mas no histórico de degradação da Bacia do Rio Doce. “A grande questão é que a lama se misturou ao sedimento do fundo do rio. Temos histórico de degradação do rio ao longo dos anos, com presença de garimpo ilegal, utilização de metais pesado, agrotóxicos de forma indiscriminada”, afirma Juliana Bedoya, líder de Manejo de Rejeito da Renova.

Ela também cita que a qualidade da água já está restabelecida. “Claro que em períodos de chuva a gente tem o aumento da turbidez”, pondera. No entanto, Juliana diz que não há informações sobre o impacto de longo prazo do consumo de água e de alimentos plantados no rejeito.

O líder de Operações Agroflorestais da Fundação, Thomás Lopes Ferreira, diz que sem essa análise, a instituição não recomenda o uso do solo ou da água pelos agricultores. “A Fundação tem o princípio da precaução. Enquanto não tiver um estudo que comprove que não tem risco à saúde, nós não fomentamos atividade agropecuária em cima do rejeito. Apesar de saber que tem proprietários fazendo isso”. Ele diz, no entanto, que não tem competência legal para impedir o cultivo.

Contenção do rejeito dos rios

Para impedir que o rejeito continue indo para os afluentes do Rio Doce, a Renova precisa realizar obras de reparação que evitem a erosão dos sedimentos às margens. Foi decidido, em conjunto com um painel de especialistas, que seria mais prejudicial retirar toda a lama do que adotar soluções individuais em cada trecho.

A Operação Áugias, do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), fiscaliza as ações de contenção do rejeito para identificar em quais pontos já poderiam ser plantadas as mudas de Mata Atlântica às margens dos afluentes do Rio Doce. São mapeados 113 pontos, dos quais 109 já foram visitados pela operação. O último relatório, divulgado em outubro, conclui que desse total, 16% dos afluentes tiveram ações satisfatórias e estão aptos para o reflorestamento. Outros 31% precisam de correções de menor proporção, o que não impede o plantio.

Mais da metade dos locais, no entanto, não tem condições de avançar para a próxima etapa: 35% precisam se ações corretivas de maior porte e 18%, ou 20 afluentes, têm uma situação ainda mais grave – devido a intervenções inadequadas ou à ausência de ações no local.

No entanto, o superintendente do Ibama em Minas Gerais, Marcelo Belisário Campos, afirma que houve avanços na preparação dos locais. “Na última operação a gente tinha a maioria das áreas precisando de ações de grande porte. Nesta operação, a situação se reverteu”. A Fundação Renova se comprometeu a completar as obras necessárias até o final deste ano e que já começou o plantio nos afluentes já preparados.

A Samarco também recupera, como parte do acordo assinado com órgãos estaduais e a União, outras 5 mil nascentes da Bacia do Rio Doce, para compensar o dano provocado. O Instituto Terra calcula que a bacia tem 300 mil nascentes degradadas, problema anterior ao rompimento da Barragem de Fundão. Serão cercadas e reflorestadas 500 nascentes por ano; a primeira leva terá o plantio realizado até dezembro.

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Comunidades e especialistas se unem para recuperar acervo de igrejas de Mariana

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Parte da história de três comunidades destruídas pelo rejeito da Mineradora Samarco parecia perdida depois da tragédia, há dois anos. Além dos pertences de centenas de famílias, três igrejas históricas dos distritos de Bento Rodrigues, Paracatu e Gesteira foram invadidas pela lama. Mas nem tudo foi perdido. Comunidade e especialistas de diversas formações se uniram para resgatar os objetos sacros e partes das igrejas, para que fossem restaurados.

O trabalho começou depois de um acordo entre o Ministério Público de Minas Gerais e a Samarco. A Fundação Renova, financiada pela mineradora para executar as ações de reparação pela tragédia, criou a Reserva Técnica, que hoje já tem mais de 2 mil peças, entre partes de altar, colunas, imagens de santos, pedaços minúsculos como cabeças ou mãos das estátuas.

Tudo estava espalhado entre uma área de mais de 100 quilômetros de lama e muita coisa ainda não foi encontrada. Da Capela de São Bento, cujo primeiro registro é de 1817, não sobrou mais que a fundação e os escombros. Para entrar na Capela de Nossa Senhora da Conceição, em Gesteira, foi um ano de trabalho para retirar todo o rejeito que cobriu boa parte do prédio e do entorno. Foram usadas técnicas de arqueologia para recuperar parte dos objetos.

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As peças foram resgatadas em estado de conservação variado. Algumas imagens ainda contavam com as apuradas técnicas de pintura e até mesmo os olhos de vidro dos santos. A estátua de Jesus na Via Crucis, da capela de Gesteira, por exemplo, perdeu quase todo o pigmento. A restauradora Mara Fantini diz que o minério de ferro contribui para esse desgaste.

Outros objetos têm importância para os costumes católicos, mas, fora de contexto, poderiam passar despercebidos. Uma garrafa pet com água que foi encontrada durante as escavações não parecia ser importante. Graças à tentativa de guardar absolutamente tudo que existia no interior das igrejas, ela foi levada. Ao ser limpa, foi encontrada uma etiqueta. Era água benta, que o padre havia levado para a comunidade dois dias antes da tragédia. “As pessoas se comoveram muito”, conta Mara. “Podem até usar para abençoar a nova comunidade”.

Para não esquecer

Mesmo com os avanços, a memória que está viva entre os moradores e nas ruínas dos distritos não é esquecida. Na avaliação das vítimas, nem deveria. Para a Comissão de Atingidos, o Brasil tinha que preservar o que ficou, para ensinar às futuras gerações.

“A gente pretende que os nossos territórios se tornem espaços de reflexão, para que nunca mais se repita o que aconteceu aqui”, defende uma das integrantes da Comissão de Atingidos, Luzia Nazaré Mota Queiroz.

O Termo de Transação de Ajustamento de Conduta, firmado entre a Samarco, a União e órgãos do Espírito Santo e de Minas Gerais, prevê a criação de “centros de memória”, mas, segundo a Fundação Renova, ainda não está definido como e onde esses centros serão criados. No que depender das vítimas, o maior desastre socioambiental do país não será esquecido.

*Confira as reportagens completas na Agência Brasil

Expediente:

REPORTAGEM

Sumaia Villela – Enviada especial*

*A repórter viajou a convite da Fundação Renova

EDIÇÃO

Lídia Neves

Graça Adjuto

IMPLEMENTAÇÃO

Talita Cavalcante

Noelle Oliveira

FOTOGRAFIA

José Cruz/Agência Brasil

EBC


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